domingo, 2 de julho de 2017

Não me interessam as hostes das odes
Nem o encanto das fantasias elegíacas.
Quanto a mim, nos versos tudo deve ser a despropósito,
Não ao modo das outras pessoas.

Se soubésseis de que porcarias
Crescem os versos sem terem vergonha,
Qual pampilho amarelo nas cercas,
Qual bardana ou celga-brava.

Grito irritado, cheiro do pez fresco,
Misterioso bolor na parede...
E já soa o verso, fogoso, terno,
Para vossa alegria, e minha.


21 de Janeiro de 1940


Anna Akhmatova
Poemas (trad. Joaquim Manuel Magalhães, Vadim Dmitriev), Relógio D'Água, 2003 (2ª ed.).

domingo, 23 de abril de 2017


Veio ter comigo certa vez um homem instruído.
«Sei o caminho, anda daí», disse-me.
Fiquei exultante.
Apressámo-nos os dois.
Pouquíssimo tempo depois, demos por nós
Onde os meus olhos não tinham préstimo,
E eu desconhecia o rumo dos meus pés.
Aferrei-me à mão do meu amigo;
Até que por fim ele gritou, «Estou perdido.»

Stephen Crane
in Lacre (traduções e versões de poesia de Vasco Gato - 2ª edição aumentada), Língua Morta, 2017.

quarta-feira, 12 de abril de 2017


Mas que procuram as nossas almas viajando
no convés de barcos aniquilados
apertadas entre mulheres amarelas e crianças que choram
sem poderem esquecer nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas indicadas pelas pontas dos mastros.
Estilhaçadas pelos discos dos gramofones
atadas sem o querer a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas estrangeiras.

Mas que procuram as nossas almas viajando
sobre as podres madeiras marítimas
de porto em porto?

Mexendo em pedras partidas, aspirando
a frescura do pinheiro com mais dificuldade cada dia,
nadando nas águas deste mar
e daquele mar,
sem tocar
sem seres humanos
dentro de uma pátria que já não é nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
por aqui algures onde tateamos
um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima
um espaço mínimo.

Yorgos Seferis, Poemas Escolhidos (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), Relógio D'Água, 2017.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

«Sempre detestei a poesia de espalhafato, essa que se serve de todos os estratagemas de efeito mais recente, ou que parecem tal, para tentar promover o seu autor ou a sua autora. Sempre detestei os tolos e as tolas que se põem a usar a chamada banalidade processual para atingir a densidade de não sei que vazio; que se dispõem a poses tão ridículas para atraírem a atenção dos que confundem a escrita com a atracção de feira. Aparece sempre quem arranje suportes teóricos e laracha verborreica para promover esses e essas patetas; quem seja capaz de invocar tropas de filósofos mais em moda para defender um ou uma qualquer saltitante atrás do que mais calha: quer do pseudónimo em apito até à fotografia elaboradamente extravagante, da pilhéria frívola ao fogo de artifício dos simplismos arvorados em verdades anímicas. Seja em novos seja em menos novos, seja em poetas seja em críticos, sempre hei-de abominar estas e estes saltarilhos do instante, estes e estas seguidistas das trepidações supostas. Se há rançosos e rançosas assim em ebulição ou em enxúndia por aí, felizmente que também há quem permaneça entendendo a radical preocupação do acto vocabular com outras muito para além do balofismo promocionante. Que (são tão engraçadas estas coisas), nunca mais conseguem deixar de vir, nesta terrinha que persiste em ser lorpa, de Paris.»


- Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre (Presença, 1999).