domingo, 23 de abril de 2017


Veio ter comigo certa vez um homem instruído.
«Sei o caminho, anda daí», disse-me.
Fiquei exultante.
Apressámo-nos os dois.
Pouquíssimo tempo depois, demos por nós
Onde os meus olhos não tinham préstimo,
E eu desconhecia o rumo dos meus pés.
Aferrei-me à mão do meu amigo;
Até que por fim ele gritou, «Estou perdido.»

Stephen Crane
in Lacre (traduções e versões de poesia de Vasco Gato - 2ª edição aumentada), Língua Morta, 2017.

quarta-feira, 12 de abril de 2017


Mas que procuram as nossas almas viajando
no convés de barcos aniquilados
apertadas entre mulheres amarelas e crianças que choram
sem poderem esquecer nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas indicadas pelas pontas dos mastros.
Estilhaçadas pelos discos dos gramofones
atadas sem o querer a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas estrangeiras.

Mas que procuram as nossas almas viajando
sobre as podres madeiras marítimas
de porto em porto?

Mexendo em pedras partidas, aspirando
a frescura do pinheiro com mais dificuldade cada dia,
nadando nas águas deste mar
e daquele mar,
sem tocar
sem seres humanos
dentro de uma pátria que já não é nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
por aqui algures onde tateamos
um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima
um espaço mínimo.

Yorgos Seferis, Poemas Escolhidos (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), Relógio D'Água, 2017.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

«Sempre detestei a poesia de espalhafato, essa que se serve de todos os estratagemas de efeito mais recente, ou que parecem tal, para tentar promover o seu autor ou a sua autora. Sempre detestei os tolos e as tolas que se põem a usar a chamada banalidade processual para atingir a densidade de não sei que vazio; que se dispõem a poses tão ridículas para atraírem a atenção dos que confundem a escrita com a atracção de feira. Aparece sempre quem arranje suportes teóricos e laracha verborreica para promover esses e essas patetas; quem seja capaz de invocar tropas de filósofos mais em moda para defender um ou uma qualquer saltitante atrás do que mais calha: quer do pseudónimo em apito até à fotografia elaboradamente extravagante, da pilhéria frívola ao fogo de artifício dos simplismos arvorados em verdades anímicas. Seja em novos seja em menos novos, seja em poetas seja em críticos, sempre hei-de abominar estas e estes saltarilhos do instante, estes e estas seguidistas das trepidações supostas. Se há rançosos e rançosas assim em ebulição ou em enxúndia por aí, felizmente que também há quem permaneça entendendo a radical preocupação do acto vocabular com outras muito para além do balofismo promocionante. Que (são tão engraçadas estas coisas), nunca mais conseguem deixar de vir, nesta terrinha que persiste em ser lorpa, de Paris.»


- Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre (Presença, 1999).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Numa biblioteca municipal esquecida
Entre duas sucursais bancárias
Debaixo de dois livros muito finos
Empoeirados
À falta de arrumação
Na trepidante prateleira de plástico
Um livro de Fernando Echevarría
Alheio a todos os dedos curiosos
Do país e já agora do mundo
Sussurrando coisas indecifráveis
Aos berrantes alunos do nono ano da escola
Cada vez mais próximos dos exigentes empregos
Um livro que podia bem calhar a qualquer autor
O velho à entrada da recepção deixa cair
O suplemento cultural
Com as sugestões literárias do dia
Dois dedos tamborilam na estante de plástico
São os segredos comovidos da funcionária da biblioteca
Tamborilam uma chuva triste e muito doméstica
Cai rente a um livro de capa dura
Que dentro já traz chuva suficiente
Possivelmente um dos livros de Echevarría
Perto troveja a gargalhada em uníssono
De muitas camisolas de malha macias
Membros céleres e enriquecidos
Da idade branca e do inverno
Procuram o estorvo das mochilas
Tropeçam para longe da funcionária
Do seu hálito pesado e das suas conversas
Com os livros fechados ou sozinha
Estranhando a utilidade da luz
E a mudança da hora
Numa babel tão comezinha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um exército de dois sai por aí a causar distúrbios entre o reino da infelicidade geral. O país, abastardado pelas novelas da crise, não liga meia, mas eles fundam um jornal nocturno para publicar as ridículas cartas de que falava o outro e vêem, nos dias seguintes, as páginas serem submergidas pelo direito de resposta de um verdadeiro povo, até ali mudo e oculto. A Constituição é reescrita em lençóis sob uma luz que geme nas intermitências do espanto e do prazer. A loucura salva. Fundem-se escolas e hospícios, orfanatos e lares de idosos, bordéis e conventos. Sacrossanta selvajaria! Não há templo onde dois ou mais corpos não possam tomar o altar e gritar «Deus», como uma obscenidade miraculosa. Um país melhor que este seria uma arena onde nos deixaríamos devorar por leões. Um país a sério seria um enorme terreno de caça, para sermos à vez as presas e os predadores. Mas os baldios em que te abandonas por estes dias não servem às grandes conquistas, às etapas heróicas que conspiraste em sonho tantas noites que já meio te esquecem. Um país não é isto. Aqui não se conhece ninguém. Ninguém sai nem volta a casa. Partilhas a cama com uma hiena que se alimenta devagar dessa carne que abandonas a noites putrefactas. Foste mais quando eras menos. Devias ter perdido a vergonha mas só te encheste de mais. Chegaste ao ponto de esperar em filas para votar em coisas como partidos. Ingressaste nas homilias do pequeno poder. Não te abandonas nem te perdes, tens relações sexuais como quem paga impostos e depois dizes o pior de quem te governa e dás por ti deprimido com o estado da nação. Não fazes parte, mas apareces em cada vez mais listas. Foste até ao jantar de natal da empresa. Dizes que tens fé, mas ninguém te dá ordens. Não tens líder, mas também não lideras ninguém. Há dias que te levam convencido de que és especial, mas ninguém está interessado nisso. Vais ao médico pedir uma extensão nos pagamentos à morte. Confundes cada vez mais facilmente a carência com o arrebatamento da paixão. Tens mais desculpas do que razões. A tua vaidade é desespero, o teu orgulho não passa de um longo currículo. Isto é um exagero. Não te revês. No fundo, e ao teu jeito, até és feliz. És livre, educado e tens amigos de sobra. Só no Facebook não para cima de imensos. Não tens vida para tanta vida.

Diogo Vaz Pinto, Anonimato (&etc, 2015)